Paula Pinho: “A riqueza da União Europeia é a sua diversidade.”

Sexta-feira, Abril 4, 2025 - 10:09
Fotografia de Paula Pinho

Paula Pinho é licenciada em Direito pela Faculdade de Direito – Escola do Porto da Universidade Católica. Integra a Comissão Europeia desde 2000, onde ocupa atualmente o cargo de porta-voz principal. Dos anos de curso na Católica, guarda memórias felizes “das amizades, dos professores, da Tuna, e da nossa querida Rosa Lina.” Estar à altura das exigências da Presidente Ursula von der Leyen é um dos grandes desafios da função que atualmente ocupa. Mas saudades de Portugal? “Portugal será sempre a minha casa.”

 

Porquê estudar Direito?

A minha grande motivação era o jornalismo. Eu queria ser jornalista e, na altura, os jornalistas mais conhecidos, como o Miguel Sousa Tavares e a Elisa Ferreira, eram de Direito. O Direito dava uma formação muito alargada e abrangente que permitia depois enveredar por diferentes caminhos.

 

Trabalha há 25 anos na Comissão Europeia. Que competências é que o Direito lhe deu?

Na verdade, os conhecimentos que adquiri com o curso de Direito valeram-me de muito porque trabalhei em diferentes políticas europeias e redigi muitos atos legislativos europeus em várias áreas. O Direito é-me extremamente útil, não naquilo que eu na altura pensava, mas, sem dúvida, muito útil para a carreira que decidi seguir.

 

Entra em Direito na Católica em 1992. Que memórias guarda dos seus anos de curso?

As amizades que ficaram até hoje – ao ponto de uma amiga de então ser hoje minha comadre! Lembro, também, a nossa querida Rosa Lina, verdadeira referência na Universidade, sempre tão amiga dos alunos, sempre disponível para nos ouvir e para nos ajudar. Entre os professores e colegas da altura, alguns são hoje membros do Governo, como é o caso do Primeiro Ministro Luís Montenegro – fomos colegas de curso e na Comissão de Curso – e do Ministro dos Negócios Estrangeiros, o Prof. Paulo Rangel que foi meu professor de Direito Constitucional e de Direito do Ambiente, entre outros.

Foi durante o meu curso na Católica que conheci o meu marido e, por isso, mudou também a minha vida. Curiosamente, guardo boas memórias dos tempos dos exames. Nesses dias intensos de estudo, na hora de almoço, lá ia eu na minha bicicleta até à praia dos Ingleses dar um mergulho no mar. Os meus colegas ficavam espantadíssimos, porque não compreendiam como é que eu me atrevia a sair da biblioteca para ir dar um mergulho (risos). Outra memória engraçada desses tempos, é que eu era conhecida por ser a única aluna da Católica que ia para a Universidade de bicicleta. Hoje em dia, andar de bicicleta é mais comum, mas na altura não era. Boas memórias!

 

Quando é que surge a vontade de seguir uma carreira Internacional?

Lembro-me bem que foi durante o curso que tive acesso a uma brochura sobre as instituições europeias, nomeadamente sobre a Comissão Europeia. Fiquei interessadíssima. Foi aí que a ideia do jornalismo deu lugar a uma vontade grande de poder trabalhar nas instituições europeias. Acabei o curso em 1997 e depois fiz uma pós-graduação em Estudos Europeus na Alemanha; ao mesmo tempo concorri para um estágio na Comissão Europeia. Consegui a vaga e foi aí que se abriu a primeira porta para aquela que viria a ser uma fascinante viagem.

 

O que é que a entusiasmou mais?

A riqueza da União Europeia é a sua diversidade. Na UE conseguimos estar unidos na diversidade e é precisamente essa diversidade que constitui uma riqueza única. Somos 27 Estados-membros e, no fim do dia, estamos a lutar por objetivos comuns a todos – a pandemia, a crise energética, as alterações climáticas e muitos outros temas. Continuo a sentir-me muito privilegiada por poder trabalhar neste projeto e por dar o meu modesto contributo. Acredito que, mais do que nunca, é uma enorme mais-valia haver uma União Europeia. Na realidade que atualmente vivemos e no nosso contexto geopolítico de muito maior agressividade e de enormes exigências, é essencial que se compreenda que juntos somos muito mais fortes e que só juntos podemos dar resposta aos grandes desafios.

 

Em dezembro de 2024, foi nomeada porta-voz principal pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Como são os seus dias enquanto porta-voz principal?

Os dias começam muito cedo, por volta das 5:30hrs da manhã. A minha primeira função, mesmo antes de sair de casa, é fazer um screening da imprensa ver quais são as últimas notícias e, com base nisso, fazer um sumário para apresentar à presidente da Comissão Europeia logo no início da manhã. É nesse momento que definimos a posição da Comissão e vemos como podemos reagir e partilhar mais informação com a imprensa. Depois, reúno com a minha equipa de porta-vozes setoriais e assistentes de imprensa que cobrem as diversas políticas europeias. Preparamos o nosso encontro diário ao meio-dia com os jornalistas na sala de imprensa antecipando possíveis questões e preparando as nossas linhas de resposta. É nesse momento que estamos disponíveis para responder a todas as questões da política europeia e de assuntos externos. No resto do dia, preparamos a comunicação sobre as várias políticas.  Além disso, acompanho regularmente a Presidente da Comissão Europeia nas suas viagens. Tenho de estar por dentro da sua linha de pensamento,  da sua linguagem, das reuniões e discussões, de acompanhar todos os temas.

 

São sempre dias muito intensos?

Sim, mas muitíssimo interessantes. Não há momentos de monotonia! Às vezes até gostava que houvesse um bocadinho (risos).

 

O que é que é mais desafiante para si?

Por um lado, estar à altura das expectativas da Presidente, que é extremamente exigente a todos os níveis, inclusivamente na comunicação. Tem a preocupação de ponderar cada palavra que utiliza – consciente que numa União de 27 países uma mesma palavra e narrativa pode ter diferentes interpretações e suscitar diferente sensibilidades. É um enorme desafio poder acompanhar a Presidente e ser capaz de ir ao encontro das suas expectativas. Outro grande desafio é comunicar o tanto que faz a Comissão Europeia. Há tanta coisa fantástica que se faz que é um desafio traduzirmos o que fazemos em histórias que interpelam os cidadãos.  Passar a mensagem de forma clara, objetiva, fugindo de linguagem técnica.
Hoje em dia, rapidamente se divulga informação incorreta e, portanto, o desafio, mais do que nunca, é conseguirmos divulgar de forma correta as mensagens, é termos embaixadores que sejam nossos aliados na transmissão da informação correta, objetiva e sustentada em factos.

 

Vive há 26 anos em Bruxelas. O que é que mais gosta?

Sem dúvida, da diversidade de pessoas com quem convivo no meu dia-a-dia. É a grande riqueza de Bruxelas que compensa o mau tempo e a falta de mar (risos). Tenho o privilégio de viver rodeada de pessoas de várias nacionalidades, não só europeias, mas, também, extraeuropeias.

 

Saudades de Portugal?

Sempre. E isso jamais mudará. Gosto muito de cá viver, mas Portugal será sempre a minha casa com C maiúsculo.

 


Pessoas em Destaque é uma rubrica de entrevistas da Universidade Católica Portuguesa, Centro Regional do Porto.