Henrique Varino da Silva distinguido com o Prémio Professor Francisco Carvalho Guerra

Segunda-feira, Maio 9, 2022 - 09:49

Henrique Varino da Silva terminou a Licenciatura em Direito com a nota mais alta no ano letivo 20/21.

Por esse motivo, foi-lhe atribuído o Prémio Francisco Carvalho Guerra e um prémio monetário no valor de 1500€.

Conversamos com o estudante acerca deste marco na sua carreira académica:

Qual era a sua rotina de estudo ao longo da licenciatura?
Como já tive a oportunidade de dizer no segundo episódio do podcast Lato Sensu (dinamizado pela AEFDUCP), ela foi variando ao longo do curso. No início, recém-saído do ensino secundário, tinha um temor enorme do mundo universitário, nomeadamente, o de reprovar em alguma disciplina, apesar de sempre ter tirado boas notas. Por isso, essencialmente no primeiro ano, acabava por estudar todo o segundo que tinha disponível, o que não era uma vida lá muito saudável sob vários pontos de vista.

Conforme o tempo foi passando e fui-me adaptando aos modelos de avaliação e estudo, acabei por adotar uma rotina de estudos que se manteve mais ou menos estável entre o segundo ano da Licenciatura e o Mestrado em Direito (Especialização em Direito Privado), ciclo de estudos que me encontro a frequentar – também na Católica – , ou seja, a rotina e o método mantém-se sensivelmente os mesmos.

Basicamente, abordo o estudo como se fosse trabalho formal, em que pelo menos 8 horas do dia são afetas a aulas, leituras, resumos e resoluções de casos práticos. Durante o semestre, realizo recolha de bibliografia, frequento as aulas, leio os materiais indicados, faço as hipóteses práticas apresentadas e organizo todas as informações que vou recolhendo e reflexões que tenha em resumos sistematizados da matéria, de acordo com uma ordem sistemática que faça sentido para mim – o que por vezes é difícil de compatibilizar com as avaliações contínuas, mas lá consegui fazer todas. Na época de exames, releio as informações plasmadas nos resumos que fui escrevendo e tento dormir pelo menos 8 horas por dia. É um método que costumo chamar de “método do caminho-de-ferro”, em que se vai construindo um percurso sistematizado de informações durante o semestre para que na época de exames a leitura possa ser mais dinâmica e rápida, permitindo rever toda a matéria de forma articulada e sem deixar escapar aqueles detalhes que fazem toda a diferença.

Este prémio é fruto de muito esforço. De que forma é que conseguiu equilibrar o estudo com as outras vertentes da sua vida?
Devo dizer que essa pergunta não é de fácil resposta e que, a par da primeira, é a que mais me fazem. A verdade é que, como em várias situações (inclusivamente jurídicas), não é possível encontrar equilíbrios: há que dar prevalência a uma coisa ou a outra, pois, (in)felizmente o tempo é um bem escassíssimo.

Tudo passava por um planeamento prévio minucioso. Buscava, todos os domingos depois do almoço, planear a semana de maneira que conseguisse cumprir com as 8 horas de estudo, estar com os amigos e com a namorada, participar de pelo menos um debate por mês na Sociedade de Debates; estar nas atividades da AEFDUCP e da Sociedade de Debates, de cujas Direções fiz parte; e dar Mentoria de forma satisfatória aos alunos que confiaram em mim no apoio ao estudante. Tudo era uma questão de foco, prioridade e respeito estrito aos horários e atividades estabelecidos – acho que isso explica a razão pela qual não lido bem com atrasos e “imprevistos” (que eram, afinal, previsíveis).

A esse propósito, lembro-me que no primeiro e segundo anos de curso, eu ia e voltava para e da Universidade de transportes coletivos, o que levava a que 4 horas do dia ficassem cativas, pelo que arranjei forma de rentabilizar aquele período de várias formas: desde fazer chamadas telefónicas para um amigo ou para a Presidente da Sociedade de Debates na altura; até estudar determinada matéria no autocarro de volta para a casa – recordo-me claramente que estudei a matéria da responsabilidade civil do Estado por violação do Direito da União Europeia de pé no autocarro enquanto ia para a Faculdade.

É possível ser um estudante dedicado e usufruir de todas as diferentes esferas da vida universitária?
Como jurista recém-formado, não posso deixar de responder que “depende”. Depende, essencialmente, e retornando ao ponto que frisei na pergunta anterior, da ordem de prioridades que o estudante traça no início ou durante o curso. Eu sempre quis ser o melhor jurista possível – afinal, foi para isso e por isso que escolhi estudar na Católica em detrimento de outras Faculdades de Direito – nem que para isso tivesse de sacrificar algumas coisas, como uma saída à noite ou horas de sono.

Ressalvada esta ideia, penso que é plenamente possível. Não deixei de ir a nenhuma festa de aniversário de um amigo querido, ou de fazer parte das Associações e Núcleos Académicos da nossa Faculdade, ainda que tivesse de fazer um esforço suplementar para conciliar tudo. Lembro-me de uma situação em que tive uma sabatina de Direito Internacional Público numa segunda-feira logo a seguir ao Encontro Nacional de Direções Associativas de Dezembro de 2018, que ocorreu em Faro, o que demandou, claro, uma organização prévia tremenda na conciliação entre a presença associativa e o estudo. Nem precisaria dizer que a viagem de ida e volta foi à volta do instituto jurídico das reservas aos tratados internacionais.

Se tivesse que eleger uma “fórmula mágica”, acho seria tentar integrar o Direito em todos os aspetos da minha vida. É um pouco como quando se está a aprender uma língua estrangeira: quanto mais se integra o aprendizado daquela língua na rotina, menor é o esforço quer na aprendizagem, quer na gestão do tempo. Exemplo disso foi, por exemplo, o Moot Court de Direito Constitucional, dinamizado pela Elsa UMINHO em 2019, que venci juntamente com 3 colegas e amigas: ao mesmo tempo que estudava Direitos Fundamentais, divertia-me com três pessoas pelas quais nutro uma amizade imensa e uma igual admiração. Nisso tudo, tinha pena dos meus amigos que tiveram de aguentar com as minhas piadas e debates jurídicos nas noites de sexta-feira…

Que planos tem para o seu futuro académico?
O meu sonho é já há algum tempo seguir a carreira acadêmica, como Professor e Investigador. A minha grande paixão e prazer é estudar e discutir o Direito com pessoas igualmente interessadas, dedicando o meu tempo ao aprofundamento de temáticas na minha área de estudos – pelo que a realização de um Doutoramento nos próximos anos pareça algo certo.  Para além disso, sempre admirei muito meus Professores e os olhava (ainda olho, aliás) com aquele pensamento de “quem me dera ser assim quando crescer”.

Vale destacar que me inspirei durante todo percurso em personalidades jurídicas que aliaram brilhantes carreiras académicas com igualmente brilhantes carreiras na advocacia – como o caso, dentre outros, dos Professores Agostinho Guedes (FDUCP), Paulo Cunha (FDUCP), Rui Medeiros (FDUCP) e Sérvulo Correia (FDUL).  Mais recentemente, graças a realização de um estágio junto da sociedade de advogados Garrigues (proporcionado pela Faculdade por ter sido um dos vencedores do Prémio ADN do Jurista), começo a ficar com dúvidas se o pendor manter-se-á mais académico ou se, pelo contrário, se tornará mais causídico. A vida no escritório de advocacia ou num tribunal traz-nos hipóteses e situações do quotidiano que nem a mais aguçada mente criativa poderia, em abstrato, pré-conceber.

Apesar de o caminho a trilhar em concreto ainda ser um pouco incerto, a única certeza que tenho é de que quero servir a construção da justiça e da ciência do Direito de maneira bifronte, enriquecendo a academia com a prática e trazendo para a prática forense reflexões e conhecimentos obtidos junto da academia.

De que forma é que a participação em diferentes programas da Faculdade o ajudou a aperfeiçoar as suas técnicas de estudo (e outro tipo de competências, se quiser referir)?
Sendo sincero, os únicos programas que integrei dinamizados pela Faculdade de Direito diretamente foram os Programa TES (de participação obrigatória no 1.º ano da licenciatura) e ADN do Jurista. Ambos tiveram importância no aprimoramento não de técnicas de estudos, mas sim de competências paralelas ao estudo.

Por um lado, o TES me fez rememorar conhecimentos de base – sobretudo ligados à gramática portuguesa – e permitiu um início mais pacífico no mundo universitário, onde a tolerância para com erros de base tende a ser menor (ou mesmo inexistente).

Por outro lado, o ADN do Jurista se mostrou uma feliz surpresa. Inscrevi-me no programa no dia em que fui realizar a matrícula na Licenciatura numa lógica mais de curiosidade, ou seja, aproveitar tudo aquilo que a Universidade poderia oferecer. Com um programa recheado de disciplinas inovadoras e que suportam, dão forma e base, ao conhecimento jurídico bruto, pude aprimorar minhas capacidades de negociação, oratória e expressão, bem como de argumentação imprescindíveis a todos os juristas. De quebra, tendo ficado entre os três melhores alunos do meu ano, pude desfrutar do Prémio ADN do Jurista, que consistiu em um estágio de 140 horas no escritório do Porto da sociedade de advogados Garrigues; bem como cultivei uma excelente relação com os docentes do programa, que incluem advogados e até mesmo uma atriz (destaco aqui a ótima relação que desenvolvi com a Professora Ana Andrade).

Que memórias leva destes quatro anos de curso?
São tantas… se fosse um pouco mais “escritor”, escreveria, sem dúvidas, um pequeno livro de memórias. Porém, e não olvidando que a pergunta foi feita de forma direta, vou tentar resumir as ideias gerais de dedicação, por um lado, e de felicidade, por outro.

Quando penso nesses quatro anos, penso sempre, num primeiro momento, nos períodos de trabalho intensos e muito sacrifício da vida pessoal intervalados por períodos de felicidade e comemorações junto dos meus amigos, namorada e família. Nem tudo foram flores, e existiram momentos de extremo nervosismo, raiva e até mesmo choro – pode parecer que não, mas a pressão do curso e o medo do que será o futuro afeta todos os estudantes. Destaco a este propósito os estudos verdadeiramente “industriais” (como uma amiga certa vez adjetivou a minha forma e intensidade de estudo) que realizei nas disciplinas de Direito das Obrigações e Direito Processual Civil, em que o estudo era tanto e o foco era tamanho que nem se quer me lembro de ter sido avaliado nessas disciplinas, tão somente do estudo que fiz na preparação.  

No fim do percurso, porém, não posso deixar de sentir-me recompensado e feliz por ter passado por isso tudo, não só pelo resultado final expresso na média, mas também pelas amizades e experiências que fui colecionando. Destaco, do ponto de vista académico, os debates extremamente profícuos com Professores (destaco a este propósito as conversas de fim de aula com os Professores Agostinho Guedes e José Brandão Proença e as trocas de e-mails verdadeiramente ricas com a Professora Rita Lobo Xavier); a visita às instituições europeias por intermédio do Eurodeputado e também Professor Paulo Rangel; a vitória no Moot Court em Direito Constitucional juntamente com 3 amigas queridas que essa Faculdade me deu e com o apoio de toda a equipa docente de Direitos Fundamentais e Constitucional. Do ponto de vista mais pessoal, levo comigo as memórias das conversas e saídas com os vários amigos que fiz no caminho (e que gentilmente me aplaudiram na cerimónia de entrega do Prémio Francisco Carvalho Guerra); dos debates interessantes e estimulantes que tive na Sociedade de Debates, instituição da qual fiz parte desde o primeiro até o último dia da minha Licenciatura e da qual o meu nome consta dos estatutos fundadores; do início de namoro com a namorada maravilhosa, que conheci neste curso; e, claro, das semanas de Queima das Fitas que, ao contrário do que um certo pensamento preconceituoso faz induzir, significam muito mais do que o queimódromo ou o cortejo, mas sim o festejar da vida universitária e das amizades que ela nos traz. 

 

As candidaturas à Licenciatura em Direito abrem no dia 6 de junho.